sexta-feira, 24 de abril de 2026

Impassível

Sou margem de um rio que nunca transborda, 
Onde o tempo encosta e desiste de ficar, 
As vozes do mundo chegam como ecos distantes, 
Quase lembranças de algo que nunca vivi. 
Não me comove o peso das horas caídas, 
Nem a pressa dos dias em ruína constante, 
Há em mim um silêncio que não se negocia. 
 
Os afetos passam como sombras indecisas, 
Tocam minha pele e retornam ao vazio, 
Não crio raízes no chão das emoções, 
Sou chão árido, intacto, sem promessa. 
O que em outros pulsa, em mim repousa, 
Como se sentir fosse um gesto esquecido, 
Um idioma antigo que deixei de falar. 
 
Ainda assim, algo vigia no fundo imóvel, 
Um ponto cego que observa sem julgar, 
Talvez o último vestígio do incêndio humano. 
Mas ele não cresce, nem pede passagem, 
Permanece suspenso entre o ser e o nada, 
Como uma chama que não aquece nem consome, 
Apenas existe, impassível, como eu. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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