domingo, 12 de abril de 2026

Surto filosófico

 Conhecer por dentro é desfazer o mundo, 
É tocar o que não tem pele nem nome, 
É abrir a coisa até que reste o nada, 
Um sopro frio onde antes havia forma, 
E nesse gesto íntimo e profundo 
Perceber que tudo escapa à matéria, 
Como um segredo que se nega a existir. 
 
Existe um vazio que pulsa sem ser visto, 
Um centro oco sustentando o real, 
Como se a ausência fosse fundamento, 
E o ser apenas um eco hesitante, 
Um quase, um talvez, um fio suspenso 
Entre o que é e o que nunca chegou a ser, 
Um abismo disfarçado de presença. 
 
Eu sempre duvido, não com desespero, 
Mas com a lucidez de quem enxerga demais, 
Como se existir fosse um costume antigo, 
Um hábito herdado do próprio nada, 
E nós, frágeis, insistindo em acreditar 
Que há chão sob os pés e forma nas coisas, 
Quando tudo é vertigem pedindo silêncio. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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