quinta-feira, 2 de abril de 2026

Ainda insisto

 Eu caminho entre vozes ocas que se aplaudem, 
Como tambores cheios de vento e vaidade, 
E carrego em mim um peso antigo e incômodo: pensar. 
Vejo a superfície ser coroada como profundidade, 
E me pergunto em que abismo a razão foi deixada. 
 
Sinto o riso fácil ferir mais do que o silêncio, 
Como lâminas leves que cortam sem esforço, 
E tudo o que é denso se torna alvo de escárnio. 
Carrego perguntas como quem carrega cicatrizes, 
Num mundo que só tolera respostas rasas. 
 
Eu, que quis compreender, tornei-me estranho, 
Quase um erro ambulante entre certezas gritadas. 
O conhecimento em mim não é troféu, é fardo, 
Uma luz que ilumina também o que dói ver. 
E por isso invejo, às vezes, a leveza dos cegos. 
 
Há dias em que o mundo me parece uma encenação, 
Onde os tolos vestem coroas de aplausos vazios, 
E os que pensam se escondem nas sombras do próprio eco. 
Eu assisto, impotente, à ascensão do ruído, 
Como quem vê o incêndio e não encontra água. 
 
Mas ainda escrevo, ainda insisto, ainda respiro fundo, 
Mesmo quando o sentido parece se desfazer no ar. 
Há em mim uma teimosia quase trágica, 
Um apego àquilo que não dá espetáculo, 
Mas sustenta, em silêncio, o que resta de humano. 
 
 Prossigo, não como vencedor, mas como testemunha, 
Guardião de uma chama que já não ilumina multidões. 
Se o mundo prefere a escuridão barulhenta, que prefira, 
Eu ainda escolho o peso lúcido da consciência, 
Mesmo que isso me condene à solidão eterna. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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