Como tambores cheios de vento e vaidade,
E carrego em mim um peso antigo e incômodo: pensar.
Vejo a superfície ser coroada como profundidade,
E me pergunto em que abismo a razão foi deixada.
Sinto o riso fácil ferir mais do que o silêncio,
Como lâminas leves que cortam sem esforço,
E tudo o que é denso se torna alvo de escárnio.
Carrego perguntas como quem carrega cicatrizes,
Num mundo que só tolera respostas rasas.
Eu, que quis compreender, tornei-me estranho,
Quase um erro ambulante entre certezas gritadas.
O conhecimento em mim não é troféu, é fardo,
Uma luz que ilumina também o que dói ver.
E por isso invejo, às vezes, a leveza dos cegos.
Há dias em que o mundo me parece uma encenação,
Onde os tolos vestem coroas de aplausos vazios,
E os que pensam se escondem nas sombras do próprio eco.
Eu assisto, impotente, à ascensão do ruído,
Como quem vê o incêndio e não encontra água.
Mas ainda escrevo, ainda insisto, ainda respiro fundo,
Mesmo quando o sentido parece se desfazer no ar.
Há em mim uma teimosia quase trágica,
Um apego àquilo que não dá espetáculo,
Mas sustenta, em silêncio, o que resta de humano.
Prossigo, não como vencedor, mas como testemunha,
Guardião de uma chama que já não ilumina multidões.
Se o mundo prefere a escuridão barulhenta, que prefira,
Eu ainda escolho o peso lúcido da consciência,
Mesmo que isso me condene à solidão eterna.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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