sábado, 11 de abril de 2026

Esse velho ilusionista

 Se disser que existem olhares 
Que atravessam os dias como lâminas cegas, 
Que veem o movimento, mas não o sentido; 
Que contam as horas, mas não sentem o instante. 
São olhos educados pelo relógio, 
Domados pela pressa, 
Acostumados a confundir passagem com verdade. 
 
O tempo, esse velho ilusionista, 
Oferece seus truques em ciclos e calendários, 
E muitos aceitam, sem suspeitar, 
Que viver é apenas seguir adiante. 
 
Mas há uma mentira sutil escondida nisso: 
O tempo não revela, apenas encobre; 
Não explica, apenas organiza o esquecimento. 
E aqueles que só confiaram nele 
Perderam o essencial, 
O invisível que não se mede, 
O eterno que não envelhece. 
 
Seus olhares tornam-se desertos: 
Vastos, porém vazios de presença. 
Olham o mundo como quem observa ruínas 
Sem jamais ter conhecido a casa. 
 
É preciso desaprender o tempo, 
Rasgar seus mapas, 
E permitir que os olhos voltem a sentir, 
Não a duração, 
Mas a intensidade de existir. 
 
Tem verdades que não passam, 
E só se revelam 
A quem ousa fechar os olhos para o tempo 
E abrir-se, enfim, ao instante infinito. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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