Que atravessam os dias como lâminas cegas,
Que veem o movimento, mas não o sentido;
Que contam as horas, mas não sentem o instante.
São olhos educados pelo relógio,
Domados pela pressa,
Acostumados a confundir passagem com verdade.
O tempo, esse velho ilusionista,
Oferece seus truques em ciclos e calendários,
E muitos aceitam, sem suspeitar,
Que viver é apenas seguir adiante.
Mas há uma mentira sutil escondida nisso:
O tempo não revela, apenas encobre;
Não explica, apenas organiza o esquecimento.
E aqueles que só confiaram nele
Perderam o essencial,
O invisível que não se mede,
O eterno que não envelhece.
Seus olhares tornam-se desertos:
Vastos, porém vazios de presença.
Olham o mundo como quem observa ruínas
Sem jamais ter conhecido a casa.
É preciso desaprender o tempo,
Rasgar seus mapas,
E permitir que os olhos voltem a sentir,
Não a duração,
Mas a intensidade de existir.
Tem verdades que não passam,
E só se revelam
A quem ousa fechar os olhos para o tempo
E abrir-se, enfim, ao instante infinito.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:
Postar um comentário