Como um eco que nunca pediu voz,
Como um perfume guardado no ar do nada,
Como um nome que não ouso dizer alto,
Mas que insiste em nascer dentro de mim.
É estranho amar o que não se alcança,
Segurar o vazio como se fosse matéria,
E encontrar nela, na falta, um abrigo,
Como se a ausência tivesse mãos
E me tocasse com mais força que a presença.
Eu gosto dela até no que não existe,
No que não veio, no que não será,
Nos caminhos que nunca cruzamos,
Nos gestos que nunca se fizeram,
E ainda assim me atravessam como memória.
E então não sei mais como desejar,
Porque desejar é querer aproximar,
E ela já está em tudo que me cerca,
No silêncio, no tempo, no meu próprio peito,
Como um mistério que não se resolve.
Quem sabe, amar assim seja aceitar o invisível,
Ser casa de algo que não se possui,
Ser campo onde a saudade floresce sem fim,
E compreender, enfim, que há sentimentos
Que não querem chegada, apenas permanecer.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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