segunda-feira, 6 de abril de 2026

Tocar o invisível

Tem um tipo de pensamento que não faz ruído, 
Ele chega como sombra suave ao entardecer, 
Não pede nome, nem forma, nem destino, 
Apenas repousa entre um instante e outro, 
Como se o tempo também precisasse respirar. 
 
Pensar em silêncio é tocar o invisível, 
É segurar a água fugidia da existência, 
E sentir que ela escorre pelos dedos atentos, 
Não por descuido, mas por natureza, 
Como tudo aquilo que insiste em passar. 
 
O tempo não grita sua passagem, 
Ele se move com passos que não ouvimos, 
E chamamos de rotina o seu disfarce, 
Sem notar que cada hábito repetido 
É também uma pequena despedida. 
 
Somos feitos de instantes que se dissolvem, 
De presenças que já começam a partir, 
Como pegadas frágeis na areia do agora, 
Que o vento apaga sem pedir licença, 
Lembrando que ficar nunca foi promessa. 
 
Ainda assim há luz nessa brevidade, 
Pois o que passa carrega um brilho único, 
O efêmero é também o que mais toca, 
E talvez viver seja só isso: 
Sentir profundamente o que não permanece. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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