quinta-feira, 23 de abril de 2026

Tronco oco de uma árvore

 Recosto o corpo ao tronco já vazio, 
E escuto o tempo oco a respirar; 
Há nele um velho e manso desafio: 
Existir é perder algo para durar. 
 
A seiva foi-se embora em seu desvio, 
Mas algo ali persiste a murmurar; 
Um resto de presença, quase um fio, 
Que insiste, mesmo em falta, em continuar. 
 
E eu, que penso a vida nesse instante, 
Me vejo feito uma árvore também: 
Por fora firme, por dentro vacilante. 
 
Mas há no tronco oco um modo de ir além, 
Pois ser não é ser pleno a todo instante, 
É ainda ser, mesmo sem ser ninguém. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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