domingo, 27 de setembro de 2026

Inventário de um ausente

 Havia um relógio parado na sala 
E ninguém perguntou a hora. 
Lá fora, os homens atravessavam a tarde 
Carregando seus nomes nos bolsos, 
Como moedas de um país extinto. 
 
Eu também tive um nome. 
Recordo vagamente seu peso 
Quando alguém o pronunciava à distância. 
Agora ele repousa sobre mim 
Como poeira nos móveis de uma casa vazia. 
 
Em que estação abandonei meu rosto? 
Talvez entre uma terça-feira e o inverno, 
Quando os pássaros discutiam nos fios 
E uma mulher fechou a janela 
Sem saber que encerrava uma época. 
 
Não houve anúncio. 
Nenhum sino atravessou a cidade. 
Apenas continuei existindo 
Com a disciplina absurda dos relógios 
Que medem aquilo que nos destrói. 
 
Eis-me aqui, se aqui significa alguma coisa, 
Reunindo fragmentos de antigas manhãs, 
Procurando entre eles aquele homem 
Que observava o mundo mudar 
Sem perceber que era ele quem desaparecia. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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