E ninguém perguntou a hora.
Lá fora, os homens atravessavam a tarde
Carregando seus nomes nos bolsos,
Como moedas de um país extinto.
Eu também tive um nome.
Recordo vagamente seu peso
Quando alguém o pronunciava à distância.
Agora ele repousa sobre mim
Como poeira nos móveis de uma casa vazia.
Em que estação abandonei meu rosto?
Talvez entre uma terça-feira e o inverno,
Quando os pássaros discutiam nos fios
E uma mulher fechou a janela
Sem saber que encerrava uma época.
Não houve anúncio.
Nenhum sino atravessou a cidade.
Apenas continuei existindo
Com a disciplina absurda dos relógios
Que medem aquilo que nos destrói.
Eis-me aqui, se aqui significa alguma coisa,
Reunindo fragmentos de antigas manhãs,
Procurando entre eles aquele homem
Que observava o mundo mudar
Sem perceber que era ele quem desaparecia.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:
Postar um comentário