Não chega montada num cavalo negro,
Não arromba a porta,
Não anuncia sua chegada.
Ela começa pequena.
Um copo a mais,
Uma palavra cuspida na cara de alguém,
Uma assinatura apressada,
Um amor escolhido pela carência
E não pela lucidez.
Depois você acorda anos mais tarde
Olhando para o teto,
Perguntando ao ventilador,
Às manchas da parede,
Aos fantasmas do quarto:
"Como fui parar aqui?"
Mas a vida não responde.
A vida apenas mostra os recibos.
Cada escolha tem um preço,
E o caixa está sempre aberto,
Mesmo quando você finge
Que não está comprando nada.
Os velhos sabem disso.
Não porque sejam santos,
Nem porque tenham vencido,
Mas porque carregam cicatrizes suficientes
Para reconhecer uma faca antes do corte.
Então sente-se por um momento.
Abra um livro imaginário,
Olhe pela janela,
Deixe a pressa morrer um pouco.
O amanhã já trará dores suficientes.
Não convide outras desnecessárias
Para entrar.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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