Achava que o futuro era uma rua sem buracos.
Os adultos pareciam saber para onde iam.
Eu acreditava neles.
A infância tem esse defeito bonito.
Depois você cresce.
Descobre que todo mundo improvisa,
Que o medo usa gravata, uniforme, aliança, diploma.
Ninguém recebe um mapa.
Só aprendemos a fingir que sabemos o caminho.
Os sonhos não morrem de uma vez.
Perdem pedaços no aluguel,
No relógio,
Nas contas sobre a mesa,
Nas despedidas que ninguém ensina.
Às vezes encontro aquele menino
Escondido em alguma fotografia amarelada.
Ele ainda olha para mim
Como quem espera um herói.
E eu abaixo os olhos por um instante.
Mas sigo andando.
Não porque a vida tenha melhorado,
Nem porque finalmente entendi alguma coisa.
Sigo porque ainda existe um resto de esperança,
E esse resto, por menor que seja, recusa-se a morrer.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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