sábado, 26 de setembro de 2026

O menino que ainda olha para mim

 Quando eu era pequeno, 
Achava que o futuro era uma rua sem buracos. 
Os adultos pareciam saber para onde iam. 
Eu acreditava neles. 
A infância tem esse defeito bonito. 
 
Depois você cresce. 
Descobre que todo mundo improvisa, 
Que o medo usa gravata, uniforme, aliança, diploma. 
Ninguém recebe um mapa. 
Só aprendemos a fingir que sabemos o caminho. 
 
Os sonhos não morrem de uma vez. 
Perdem pedaços no aluguel, 
No relógio, 
Nas contas sobre a mesa, 
Nas despedidas que ninguém ensina. 
 
Às vezes encontro aquele menino 
Escondido em alguma fotografia amarelada. 
Ele ainda olha para mim 
Como quem espera um herói. 
E eu abaixo os olhos por um instante. 
 
Mas sigo andando. 
Não porque a vida tenha melhorado, 
Nem porque finalmente entendi alguma coisa. 
Sigo porque ainda existe um resto de esperança, 
E esse resto, por menor que seja, recusa-se a morrer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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