Ela entra pela janela, abre um livro imaginário
E ri da minha cara.
O café esfria antes de mim.
Os livros fingem que ainda têm alguma resposta,
O relógio insiste no mesmo truque barato:
Empurrar minutos sobre um homem
Que já desistiu de contá-los.
Você foi embora.
O resto é mobília.
Há uma cadeira vazia na cozinha,
E às vezes olho para ela
Como quem espera
Um milagre de um pedaço de madeira.
Milagres são péssimos inquilinos:
Nunca pagam aluguel, nunca aparecem.
Aprendi que a solidão
Não faz barulho quando chega.
Ela apenas ocupa o seu lugar na cama,
Bebe o último gole da garrafa
E me convence de que amanhã será igual a hoje.
Mesmo assim, escrevo.
Não porque a poesia salve alguém,
Mas porque o papel é o único sujeito
Que ainda suporta ouvir
O que nem eu tenho coragem de admitir.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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