sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A solidão não faz barulho

 A madrugada não tem pena de ninguém. 
Ela entra pela janela, abre um livro imaginário 
E ri da minha cara. 
O café esfria antes de mim. 
Os livros fingem que ainda têm alguma resposta, 
O relógio insiste no mesmo truque barato: 
Empurrar minutos sobre um homem 
Que já desistiu de contá-los. 
 
Você foi embora. 
O resto é mobília. 
Há uma cadeira vazia na cozinha, 
E às vezes olho para ela 
Como quem espera 
Um milagre de um pedaço de madeira. 
Milagres são péssimos inquilinos: 
Nunca pagam aluguel, nunca aparecem. 
 
Aprendi que a solidão 
Não faz barulho quando chega. 
Ela apenas ocupa o seu lugar na cama, 
Bebe o último gole da garrafa 
E me convence de que amanhã será igual a hoje. 
 
Mesmo assim, escrevo. 
Não porque a poesia salve alguém, 
Mas porque o papel é o único sujeito 
Que ainda suporta ouvir 
O que nem eu tenho coragem de admitir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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