Embriagar-me-ei sem cessar,
Porque a lucidez do mundo é áspera demais.
As ruas falam em números,
Os homens respiram prazos,
E os relógios devoram o pulso do tempo.
Mas eu escolho outro vício.
Embriago-me de palavras que ainda não nasceram,
De sílabas que tremem como lâminas
E depois se tornam asas.
Bebo metáforas como quem bebe vinho antigo,
Deixando que me queimem por dentro
Até queimar também o medo.
Embriagar-me-ei de poesia
Porque só ela me devolve o espanto.
Só ela rasga o tecido opaco do dia
E revela o invisível,
Esse fio dourado que sustenta o caos.
Que me chamem de insensato.
Prefiro cambalear entre versos
Do que caminhar sóbrio na aridez das certezas.
Prefiro o delírio que cria
Ao equilíbrio que apaga.
Embriagar-me-ei de poesia
Como quem mergulha no próprio abismo
E descobre que o fundo
É, na verdade, o próprio céu.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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