Só eu e você existíamos.
Não havia cidade,
Nem relógios mastigando as horas,
Nem o peso do mundo pendurado nos ombros.
Era como se o universo tivesse esquecido
De terminar a criação,
E tivesse deixado apenas dois traços
Sobre a tela do infinito:
Eu… e você.
O silêncio não doía.
Ele respirava.
E cada passo que dávamos
Inventava o chão.
Teus olhos eram a única geografia possível,
E eu me perdia neles
Como quem encontra casa
Num lugar que nunca esteve no mapa.
Em um dos meus sonhos
Não havia passado para nos ferir,
Nem futuro para nos ameaçar.
Só o instante,
Vasto e inteiro,
Como um mar sem margens.
Eu não precisava ser forte.
Você não precisava fugir.
Não éramos versões corrigidas de nós mesmos,
Nem máscaras tentando sobreviver.
Éramos apenas presença.
E quando acordei,
O mundo voltou a ter barulho,
Distâncias e compromissos.
Mas ficou em mim
Uma espécie de claridade secreta,
Porque em algum lugar que não obedece à lógica,
Há um sonho que insiste
Em continuar nos sonhando.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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