segunda-feira, 2 de março de 2026

Em um dos meus sonhos

 Em um dos meus sonhos 
Só eu e você existíamos. 
Não havia cidade, 
Nem relógios mastigando as horas, 
Nem o peso do mundo pendurado nos ombros. 
 
Era como se o universo tivesse esquecido 
De terminar a criação, 
E tivesse deixado apenas dois traços 
Sobre a tela do infinito: 
Eu… e você. 
 
O silêncio não doía. 
Ele respirava. 
E cada passo que dávamos 
Inventava o chão. 
 
Teus olhos eram a única geografia possível, 
E eu me perdia neles 
Como quem encontra casa 
Num lugar que nunca esteve no mapa. 
 
Em um dos meus sonhos 
Não havia passado para nos ferir, 
Nem futuro para nos ameaçar. 
Só o instante, 
Vasto e inteiro, 
Como um mar sem margens. 
 
Eu não precisava ser forte. 
Você não precisava fugir. 
Não éramos versões corrigidas de nós mesmos, 
Nem máscaras tentando sobreviver. 
Éramos apenas presença. 
 
E quando acordei, 
O mundo voltou a ter barulho, 
Distâncias e compromissos. 
 
Mas ficou em mim 
Uma espécie de claridade secreta, 
Porque em algum lugar que não obedece à lógica, 
Há um sonho que insiste 
Em continuar nos sonhando. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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