sexta-feira, 13 de março de 2026

Incapacidade humana

Às vezes não é o céu que escurece. 
É o homem. 
Esse ser humano terrível. 
O mundo não termina com trombetas 
Nem com estrelas caindo, 
Ele termina lentamente 
Quando a brutalidade se torna costume. 
Termina quando a violência deixa de espantar 
E passa apenas a cansar. 
 
Há algo de profundamente assustador 
No momento em que percebemos 
Que a barbárie não vem de monstros, 
Mas de mãos humanas 
Que aprenderam a apertar gatilhos, 
Erguer muros, e fechar os olhos. 
 
O fim do mundo começa assim: 
Não com um estrondo, 
Mas com a perda do espanto. 
Quando a dor do outro já não nos atravessa. 
Quando a mentira vira estratégia. 
Quando a crueldade encontra aplausos. 
 
Nesse momento, 
Algo dentro da própria humanidade 
Se despedaça em silêncio. 
E então sentimos aquela estranha sensação, 
Como se o chão da história estivesse cedendo, 
Como se estivéssemos vivendo 
Entre ruínas que ainda não caíram, 
Mas já perderam sua alma. 
 
O mais terrível 
É que o mundo continua girando. 
As manhãs ainda chegam. 
Os pássaros ainda atravessam o céu. 
Os rios continuam correndo. 
Mas algo essencial 
Parece ter sido quebrado dentro do homem. 
 
E quem garante que não seja isso 
Que faz nascer em nós 
Essa sensação difícil de explicar: 
A impressão de que o mundo 
Não está acabando pela natureza, 
Nem pelo tempo, 
Mas pela incapacidade humana 
De continuar sendo humano. 
 
Mas penso que, 
Enquanto existir alguém 
Capaz de se indignar, 
De chorar pela dor alheia, 
De proteger a vida 
Mesmo quando tudo parece perdido, 
O mundo ainda não tenha terminado. 
Mas esteja apenas esperando 
Que a humanidade 
Se lembre novamente de si mesma. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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