sábado, 14 de março de 2026

Gritos de poesia

 Eu morri. 
Não como quem dorme, 
Mas como quem se quebra por dentro 
E escuta o próprio silêncio estilhaçar. 
Morri nas esquinas daquilo que eu era. 
Nas promessas que não floresceram. 
Nos nomes que já não cabiam na minha pele. 
 
E então… 
No fundo de um mundo feito de concreto, 
Onde a vida parece sufocada 
Sob camadas de pressa e esquecimento, 
Algo começou a arder. 
Não era destruição. 
Era nascimento. 
 
Abri os olhos como quem rasga a noite. 
Sou uma fênix brotando 
Do lodo duro do cimento, 
Onde ninguém espera milagres. 
Minhas asas não são limpas, 
São feitas de cinza, de falhas, 
De memórias queimadas. 
Mas ainda assim eu voo. 
 
Consumo o que fui em fogo lento, 
E dos meus próprios escombros 
Erguem-se gritos, 
Gritos de poesia. 
Porque há mortes que não são fins. 
São portas. 
E há incêndios 
Que não destroem o mundo. 
Eles acendem a alma. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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