E as janelas devolvem um céu que já não existe.
Quando te vejo, não é apenas teu rosto,
Mas todas as perguntas que caminham atrás dele,
Como relógios que continuam marcando um tempo esquecido.
O desejo não fala; organiza ruínas.
Há uma cidade inteira dentro do coração,
Onde as ruas conhecem o peso dos passos,
E cada silêncio é uma ponte suspensa
Sobre o rio invisível das possibilidades.
Procuro um sentido entre os gestos comuns:
Uma folha levada pelo vento,
O reflexo quebrado de uma lâmpada na chuva,
A sombra que insiste em acompanhar o viajante
Mesmo quando ele duvida da própria direção.
Amar é atravessar corredores vazios
Sem esperar que todas as portas se abram.
A esperança não elimina a ausência;
Apenas ensina a caminhar ao lado dela,
Como quem aprende o idioma discreto da noite.
E quando teu olhar encontra o meu,
O mundo não se resolve nem se explica.
Apenas permanece suspenso por um instante,
Entre aquilo que poderia ter sido
E aquilo que, silenciosamente, continua sendo.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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