sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O instante e a sombra

 A tarde recolhe seus próprios ecos, 
E as janelas devolvem um céu que já não existe. 
Quando te vejo, não é apenas teu rosto, 
Mas todas as perguntas que caminham atrás dele, 
Como relógios que continuam marcando um tempo esquecido. 
 
O desejo não fala; organiza ruínas. 
Há uma cidade inteira dentro do coração, 
Onde as ruas conhecem o peso dos passos, 
E cada silêncio é uma ponte suspensa 
Sobre o rio invisível das possibilidades. 
 
Procuro um sentido entre os gestos comuns: 
Uma folha levada pelo vento, 
O reflexo quebrado de uma lâmpada na chuva, 
A sombra que insiste em acompanhar o viajante 
Mesmo quando ele duvida da própria direção. 
 
Amar é atravessar corredores vazios 
Sem esperar que todas as portas se abram. 
A esperança não elimina a ausência; 
Apenas ensina a caminhar ao lado dela, 
Como quem aprende o idioma discreto da noite. 
 
E quando teu olhar encontra o meu, 
O mundo não se resolve nem se explica. 
Apenas permanece suspenso por um instante, 
Entre aquilo que poderia ter sido 
E aquilo que, silenciosamente, continua sendo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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