terça-feira, 22 de setembro de 2026

Não me cortes em fatias

 Não me cortes em fatias. 
Cada parte perderia o nome da outra. 
Sou a soma das perguntas que me habitam, 
E o vazio que me atravessa 
Também é uma forma de existir. 
 
Não me escolhas apenas nos dias claros. 
A noite revela o que o sol esconde. 
Há uma verdade nas minhas incertezas 
Que nenhuma máscara consegue silenciar, 
Porque existir é caminhar sem garantias. 
 
Se me abraças, abraça também meus abismos. 
Não para preenchê-los, mas para reconhecê-los. 
O ser humano não nasce acabado; 
Constrói-se entre escolhas e renúncias, 
Como quem escreve o próprio destino no escuro. 
 
Não procures um sentido pronto em mim. 
Sou obra inacabada de cada instante. 
O significado não me espera adiante; 
Ele nasce quando assumo a liberdade 
E aceito o peso de ser quem sou. 
 
Se não podes acolher-me inteiro, parte. 
Prefiro a solidão à existência fragmentada. 
Ninguém vive plenamente em pedaços, 
Pois a alma, quando dividida para agradar, 
Deixa de reconhecer a própria voz. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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