terça-feira, 22 de setembro de 2026

A travessia do pensamento

 O pensamento atravessa a tarde como uma ave sem estação. 
Não pergunta pelo nome das árvores, 
Nem pela idade das pedras. 
Apenas risca o céu 
E deixa no silêncio um vestígio que ninguém recolhe. 
 
As ruas carregam o cansaço das horas. 
As janelas observam o mundo sem expectativa. 
Há uma poeira antiga sobre os gestos cotidianos, 
Como se cada passo repetisse 
Uma pergunta esquecida antes de ser formulada. 
 
Procuro um centro entre tantas direções. 
O relógio responde com o seu ofício indiferente. 
As sombras alongam o que não compreendo. 
Mesmo a luz parece hesitar 
Diante daquilo que não pode explicar. 
 
Quem sabe a alma seja apenas um corredor 
Por onde passam vozes sem rosto. 
Reconheço algumas, mas nenhuma permanece. 
O pensamento continua seu voo, 
Estranho até para quem o abriga. 
 
Quando a noite enfim recolhe os contornos do mundo, 
Resta apenas o espaço entre uma respiração e outra. 
É ali que descubro a medida da existência: 
Não na posse das respostas, 
Mas na coragem de permanecer diante do mistério. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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