sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O velho poeta

Sob a cama, por milagre, paira o caos, 
Em linhas sonoras que ninguém vê, 
Fios de silêncio costuram o impossível, 
Enquanto a poeira inventa eternidades. 
O passado se arrasta entre sombras, 
Os sonhos perdidos murmuram baixinho, 
E o velho poeta apenas observa. 
 
Há sapatos que caminham sem passos, 
Cartas que sangram palavras não ditas, 
Um relógio que esqueceu de morrer, 
E lembranças flutuando no escuro. 
Tudo se desordena, tudo respira, 
Como se o universo, cansado de ser, 
Desaprendesse a própria existência. 
 
O velho poeta não toca em nada, 
Conhece a linguagem secreta das ruínas. 
Sabe que a vida também mora no avesso, 
Onde o caos dança sem música, 
Onde o invisível floresce em silêncio. 
E sorri, enquanto a noite se inclina: 
Existe poesia até naquilo que perdemos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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