sábado, 21 de fevereiro de 2026

Apologia ao conhecimento VI

 O conhecimento não respondeu 
À pergunta sobre o sentido. 
Ele apenas mostrou 
Que a pergunta 
Era tudo o que havia. 
 
Existir passou a ser um peso consciente. 
Antes eu vivia. 
Depois, 
Passei a saber 
Que estava vivendo. 
 
Não encontrei essência, 
Nem plano oculto, 
Nem mão guiando o caos. 
Encontrei apenas 
A mim mesmo 
Responsável por cada passo. 
 
Pensar foi perceber 
Que ninguém virá corrigir o erro, 
Que não há ensaio geral, 
E que o silêncio do mundo 
Não é castigo, é condição. 
 
A liberdade não apareceu como dádiva. 
Veio como vertigem. 
Escolher tornou-se trágico 
Porque toda escolha 
Enterra outras vidas possíveis. 
 
O conhecimento não me deu identidade. 
Arrancou as que eu usava. 
Restou esse eu inacabado, 
Obrigado a se inventar 
Sem garantias. 
 
Há dias em que existir 
Parece um argumento frágil, 
Sustentado apenas 
Pela recusa de desistir. 
 
Compreendi que o absurdo 
Não é um problema a resolver, 
Mas um espaço a habitar 
Com alguma dignidade. 
 
O pensamento não me salvou do vazio. 
Apenas me ensinou 
Que o vazio não é exceção, 
É o cenário. 
 
E ainda assim, acordo. 
Escolho. 
Sigo. 
Não porque faça sentido, 
Mas porque existir, 
Mesmo sem resposta, 
É o único gesto 
Que ainda me pertence. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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