sábado, 24 de outubro de 2026

Um tremor leve que nasce

 O desejo é um clarão que não sabe onde cair. 
Paira. 
Suspende o tempo. 
Cria uma geografia íntima 
Que só existe no escuro da mente. 
Há um toque que não toca, mas arde. 
Um beijo que não é gesto, mas ideia. 
E é na ideia que a pele se inflama. 
O outro não é pessoa, mas horizonte: 
Um contorno que insiste em se desfazer 
No instante em que se olha de novo. 
O pensamento percorre esse horizonte 
Como quem passa os dedos 
Sobre um tecido invisível, 
Sentindo texturas que não existem 
A não ser no campo da imaginação. 
O desejo aqui não possui, insinua. 
Não pede, paira. 
Não chega, retorna. 
Há um corpo feito de hipóteses, 
Um perfume que não existe, mas insiste, 
Um tremor leve que nasce 
No exato lugar onde o real hesita. 
E quando a fantasia se aproxima demais, 
O mundo se torna bruma, 
O tempo se dobra, 
E a espera ganha um brilho secreto, 
Quase ritual. 
Pois o amor, quando não acontece, 
Acontece em excesso. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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