Paira.
Suspende o tempo.
Cria uma geografia íntima
Que só existe no escuro da mente.
Há um toque que não toca, mas arde.
Um beijo que não é gesto, mas ideia.
E é na ideia que a pele se inflama.
O outro não é pessoa, mas horizonte:
Um contorno que insiste em se desfazer
No instante em que se olha de novo.
O pensamento percorre esse horizonte
Como quem passa os dedos
Sobre um tecido invisível,
Sentindo texturas que não existem
A não ser no campo da imaginação.
O desejo aqui não possui, insinua.
Não pede, paira.
Não chega, retorna.
Há um corpo feito de hipóteses,
Um perfume que não existe, mas insiste,
Um tremor leve que nasce
No exato lugar onde o real hesita.
E quando a fantasia se aproxima demais,
O mundo se torna bruma,
O tempo se dobra,
E a espera ganha um brilho secreto,
Quase ritual.
Pois o amor, quando não acontece,
Acontece em excesso.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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