Girando em busca de sinais distantes,
Captando vozes que não são suas.
O céu não cabe em cabos e antenas,
E a sua essência não depende de frequência alguma.
Você não é o microchip que construiu,
Minúsculo templo de silício e lógica,
Onde números marcham em silêncio.
Mesmo que as máquinas aprendam a falar,
Há em você um idioma que não pode ser programado.
Você não é o arranha-céu erguido em concreto,
Nem a altura que os olhos invejam nas cidades.
Torres são apenas pedras empilhadas
Tentando tocar um céu que sempre escapa.
Grandeza não mora em andares numerados.
Você é o intervalo entre uma ideia e outra,
O espaço onde a dúvida respira.
É o instante em que alguém para e pergunta
Se o mundo pode ser diferente
Do que os mapas insistem em mostrar.
Você é feito de perguntas antigas,
Daquelas que nenhuma máquina responde.
Carrega dentro do peito uma noite inteira
Cheia de estrelas ainda sem nome,
Esperando apenas que alguém as veja.
Você não precisa de coroas de vidro,
Nem de circuitos brilhando na escuridão.
O que você é cresce em silêncio,
Como uma raiz que atravessa a pedra
Sem pedir licença ao mundo.
E quando tudo o que foi construído ruir,
Antenas, chips e cidades verticais,
Restará aquilo que nunca foi fabricado:
Esse sopro estranho e indomável
Que insiste em chamar você de humano.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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