Não falo de um amor embalsamado,
Preservado em vitrines de gestos ensaiados,
Nem desse afeto que nunca morre
Porque nunca viveu fora das molduras
Ou do aplauso confortável dos olhares.
Não falo de flores que não apodrecem,
Da beleza que não conhece o tempo,
Pois o que não murcha também não respira,
E o que não sangra jamais foi pulsação,
Apenas ornamento obediente.
Falo de um amor que ousa adoecer,
Que carrega em si o risco e a ruína,
Que treme diante do fim como quem sente frio,
Porque é feito da mesma matéria frágil
Que sustenta os dias e os corpos.
Um amor sem estátuas, sem eternidades,
Mas intenso o bastante para justificar o abismo;
Um amor que não pede para ser lembrado,
Apenas vivido, imortalizado,
Mesmo que sobreviva apenas como cicatriz.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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