Não pelo peso do tempo,
Mas pelo peso das horas vendidas.
Endireitamo-nos apenas quando nascemos
Depois disso, a vida nos dobra lentamente
Como quem dobra um papel
Até caber dentro de um relógio de ponto.
Nossas colunas não se curvam diante dos deuses,
Nem diante do mistério do universo.
Curvam-se diante de planilhas,
Metas,
Turnos,
E promessas de sobrevivência.
Há algo de trágico nisso:
Trocaram-nos o horizonte pela repetição,
E a mente, essa massa cinzenta
Capaz de imaginar mundos,
Foi comprada
Em suaves prestações de salário.
Vendemos pensamentos
Para pagar o direito de continuar pensando.
Assim nasceu o homem de coluna envergada:
Não um derrotado,
Mas um sobrevivente
De um sistema que descobriu
Que era mais lucrativo comprar o cérebro
Se primeiro dobrasse as costas.
E, no entanto,
Há momentos perigosos para o mundo:
Quando um trabalhador se endireita.
Quando uma coluna cansada
Lembra que foi feita
Para sustentar o corpo erguido,
Não para carregar eternamente
O peso do lucro alheio.
Uma coluna que se levanta
É também uma consciência que desperta.
E quando a consciência desperta,
As costas deixam de ser apenas curvadas,
Tornam-se espinha dorsal de revolta.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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