domingo, 15 de março de 2026

O homem da coluna envergada

 Somos uma geração de costas curvadas. 
Não pelo peso do tempo, 
Mas pelo peso das horas vendidas. 
Endireitamo-nos apenas quando nascemos 
Depois disso, a vida nos dobra lentamente 
Como quem dobra um papel 
Até caber dentro de um relógio de ponto. 
 
Nossas colunas não se curvam diante dos deuses, 
Nem diante do mistério do universo. 
Curvam-se diante de planilhas, 
Metas, 
Turnos, 
E promessas de sobrevivência. 
 
Há algo de trágico nisso: 
Trocaram-nos o horizonte pela repetição, 
E a mente, essa massa cinzenta 
Capaz de imaginar mundos, 
Foi comprada 
Em suaves prestações de salário. 
Vendemos pensamentos 
Para pagar o direito de continuar pensando. 
 
Assim nasceu o homem de coluna envergada: 
Não um derrotado, 
Mas um sobrevivente 
De um sistema que descobriu 
Que era mais lucrativo comprar o cérebro 
Se primeiro dobrasse as costas. 
 
E, no entanto, 
Há momentos perigosos para o mundo: 
Quando um trabalhador se endireita. 
Quando uma coluna cansada 
Lembra que foi feita 
Para sustentar o corpo erguido, 
Não para carregar eternamente 
O peso do lucro alheio. 
 
Uma coluna que se levanta 
É também uma consciência que desperta. 
E quando a consciência desperta, 
As costas deixam de ser apenas curvadas, 
Tornam-se espinha dorsal de revolta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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