quarta-feira, 18 de março de 2026

A prova de que ainda estamos vivos

A poesia e a filosofia não vieram 
Para adormecer consciências, 
Mas para quebrar o vidro do hábito, 
Rasgar o verniz da normalidade 
E devolver ao espírito o peso da lucidez. 
Elas incomodam porque desnudam. 
 
O que chamamos de óbvio não é verdade, 
É apenas preguiça da alma, 
É a máscara barata que cobre 
A vastidão de nossas perguntas. 
 
A poesia não aceita o chão raso: 
Ela mergulha, atravessa, sangra símbolos, 
Faz do silêncio 
Um grito e da palavra um abismo. 
A filosofia não aceita muros: 
Ela questiona, perfura, 
Expõe a ferrugem dos sistemas 
E mostra que o pensamento 
Só respira na incerteza. 
 
Quem busca conforto deve fugir delas. 
Pois nelas não há consolo, 
Há movimento. 
Nelas não há respostas, 
Há um chamado para queimar as respostas 
E renascer das cinzas da dúvida. 
 
O incômodo é a prova 
De que ainda estamos vivos. 
E se a poesia e a filosofia ferem, 
É porque arrancam de nós a anestesia, 
E só desperto 
Pode alguém escolher o seu próprio caminho. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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