quarta-feira, 18 de março de 2026

A alavanca

 Tropeço nos ensaios que a vida me oferece, 
Como ator que esquece as falas no meio da cena. 
Mas não é a queda que decide o meu destino, 
É a busca silenciosa dentro de mim 
Pela alavanca que me levanta outra vez. 
 
Há dias em que o chão parece definitivo, 
E o erro ecoa como aplauso invertido. 
Caminho entre tentativas mal acabadas, 
Figurino rasgado de sonhos provisórios, 
Aprendendo a cair sem abandonar o palco. 
 
Porque viver é ensaiar sem roteiro final, 
É repetir gestos até que façam sentido. 
Cada tropeço afrouxa um parafuso do medo, 
Cada falha revela uma porta escondida 
Onde a esperança repousa em silêncio. 
 
Procuro então a pequena alavanca invisível, 
A força mínima que muda todo o peso. 
Um pensamento, um afeto, uma memória, 
Qualquer centelha capaz de mover o mundo 
Quando tudo em mim parece imóvel. 
 
E quando a encontro, às vezes tão simples, 
Levanto como quem redescobre o próprio corpo. 
Os tropeços ficam espalhados pelo caminho 
Como marcas de um aprendizado secreto: 
Cair também faz parte de aprender a subir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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