Uma fumaça fria atravessando os corredores da manhã.
Os homens apertam os próprios punhos no escuro
Como se o mundo escondesse facas sob a língua
E cada silêncio anunciasse uma queda inevitável.
As janelas permanecem abertas para ruas vazias,
Mas ninguém confia totalmente no horizonte.
Há um rumor metálico vibrando nas esquinas,
Um tremor invisível dentro das conversas comuns,
Como febre escondida sob a pele da cidade.
As luzes dos aparelhos nunca descansam,
Alimentam fantasmas elétricos madrugada adentro.
Cada notícia pinga medo dentro das veias,
Cada palavra parece carregada de pólvora
E os sonhos amanhecem cansados antes do corpo.
Vejo pessoas caminhando depressa demais,
Olhando para trás sem saber exatamente por quê.
Carregam tempestades privadas dentro dos olhos,
Orações quebradas dentro dos bolsos do casaco
E um cansaço antigo pendurado nos ombros.
Mesmo assim, algo insiste em sobreviver.
Uma planta crescendo entre rachaduras do cimento.
Um abraço tardio salvando alguém do abismo.
Uma voz mansa atravessando o ruído coletivo
Como uma vela acesa dentro da névoa lívida.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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