domingo, 31 de maio de 2026

Um eterno passageiro

Caminho sem saber o nome da rua seguinte, 
Como quem atravessa um sonho sem intérprete. 
Meus passos riscam perguntas sobre a calçada, 
E o vento responde numa língua esquecida. 
Carrego apenas o peso leve da incerteza, 
Enquanto o mundo se desfaz e se refaz ao redor, 
Como um pensamento que nunca chega ao fim. 

Em cada esquina habita uma possibilidade, 
Um rosto que não conheço, uma perda futura, 
Ou talvez um fragmento de mim abandonado no tempo. 
Olho as vitrines, as sombras e os céus partidos, 
E percebo que sou tão passageiro quanto eles. 
Nada permanece além do instante que atravesso, 
E mesmo o instante já começa a se despedir. 

Continuo, porque parar também é um mistério. 
Não sei quem serei depois da próxima curva, 
Nem o que restará das perguntas que me movem. 
Mas há uma estranha beleza nessa ignorância: 
A de existir sem garantias sob o céu indiferente. 
E assim caminho, entre o acaso e o silêncio, 
Procurando um sentido que talvez seja a própria busca. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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