Como quem atravessa ruas cobertas de fumaça.
As palavras grudam na minha pele cansada
E respiram dentro do meu peito sem licença,
Feito um vírus antigo recusando a própria morte.
Aprendi cedo que a linguagem também adoece.
Há frases que beijam enquanto envenenam,
Discursos que sorriem mostrando os dentes,
Promessas costuradas com fios de ferrugem
Para prender os homens no conforto da mentira.
Eu mesmo já fui hospedeiro de muitos delírios.
Repeti verdades prontas como orações vazias,
Engoli slogans para suportar os dias
E deixei que pensamentos alheios ocupassem
Os quartos escuros da minha consciência.
Agora observo a multidão febril nas avenidas,
Cada rosto carregando uma epidemia diferente.
Ninguém percebe o quanto sangra por dentro,
Porque o ruído do mundo cobre os gemidos
Como propaganda cobrindo cadáveres na chuva.
Ainda assim escrevo contra essa contaminação.
Minha poesia é uma ferida tentando respirar,
Um corpo recusando o idioma das máquinas.
E enquanto houver silêncio dentro dos meus olhos,
Lutarei contra a doença escondida nas palavras.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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