segunda-feira, 8 de junho de 2026

Enquanto houver perguntas

Há dentro de ti uma margem não tocada, 
Um campo onde o vento ainda não passou, 
Onde as palavras dos outros 
Ainda não lançaram suas sementes gastas. 
Ali mora o que te inquieta. 
Ali mora o que te salva. 
Andar com quem te desafia 
É permitir que esse campo 
Seja cultivado com mãos firmes, 
Mesmo que, no início, pareçam mãos de quem te fere. 
São eles, os que chegam sem prometer conforto, 
Mas que trazem nas veias 
A coragem de nomear o indizível. 
Eles não te poupam. 
Desmontam teus pequenos altares, 
Derrubam tuas teorias de bolso, 
Riem das verdades que construíste 
Só para ter onde repousar. 
Mas é por isso que são necessários. 
Porque o que te desafia é o que te move. 
O que te expõe é o que te expande. 
E quanto à ignorância… 
Ela é um sono coletivo, 
Um pacto de olhos baixos, 
Um acordo de silêncio 
Onde a verdade vira um hóspede indesejado. 
Não te deites ao lado disso. 
Não adormeças nesse chão fácil. 
Enquanto houver pergunta, 
Enquanto houver incômodo, 
Enquanto a tua alma for capaz de arder 
Por algo que ainda não entende, 
Estarás vivo. 
Mesmo que sozinho. 
Mesmo que em guerra consigo. 
Mas desperto. Sempre desperto. 

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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