O racista sempre me pareceu um sujeito estranho.
Não porque odeie alguém.
O mundo está cheio de gente odiando gente.
Mas porque escolhe algo tão ridiculamente superficial
Para sustentar seu ódio.
A cor da pele.
Como se a vida não fosse dura o bastante.
Como se as contas não chegassem para todos,
Como se o álcool não queimasse igual na garganta,
Como se a solidão perguntasse a cor de alguém
Antes de se sentar ao seu lado.
Eu os vi nos bancos escolares,
Nos escritórios,
Nas esquinas,
Falando de superioridade
Com a mesma boca que mentia para a esposa,
Enganava os amigos
E tremia diante do espelho.
A verdade é simples.
A maioria das pessoas já está perdida demais
Para se achar melhor do que alguém.
Nascemos confusos,
Envelhecemos assustados
E terminamos debaixo da mesma terra.
Ainda assim há quem passe a vida
Contando tonalidades de pele
Enquanto o tempo esvazia seus bolsos.
É um desperdício.
Um desperdício de dias,
De cervejas,
De conversas,
De possibilidades.
Quando a morte chegar,
E ela sempre chega,
Não levará uma tabela de cores.
Apenas perguntará,
Em seu silêncio habitual,
O que você fez
Com o pouco tempo que teve.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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