Pois também ela pertence ao vasto corpo do mundo;
Canto os vales escuros, as ruas esquecidas, os rostos anônimos,
Canto os chacinados pelos anjos caídos da modernidade,
E os recebo em meu abraço como irmãos e irmãs da mesma jornada.
Eu os vejo!
Vejo o trabalhador que retorna em silêncio ao cair da tarde,
A mulher que carrega nos olhos o peso de gerações inteiras,
O jovem que procura um significado entre ruínas de promessas,
E em cada um deles reconheço uma centelha da eternidade.
Ó modernidade, com tuas máquinas velozes e teus templos de vidro!
Não és apenas glória, nem apenas ruína;
Em teu ventre convivem a invenção e o esquecimento,
A esperança que constrói pontes e a ambição que ergue muros,
E eu canto ambas, porque ambas habitam a condição humana.
Quem poderá medir a força daqueles que sobrevivem à noite?
Quem contará os sonhos soterrados sob o peso dos séculos?
Eu os celebro! Eu os convoco!
Que se levantem os invisíveis, os humilhados, os esquecidos,
Pois sua existência é um poema escrito na carne do tempo.
E quando o amanhecer abrir suas portas douradas sobre a terra,
Não será apenas o triunfo da luz sobre a sombra;
Será o encontro de todas as vozes dispersas no grande coro da vida,
E eu caminharei entre elas, cantando o homem, a mulher, a estrada e o horizonte,
Cantando o universo inteiro que continua a nascer dentro de nós.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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