Canto esta criatura que habita meu peito
E que não se contenta com os limites da carne,
Nem com as fronteiras que os homens traçam
Entre um corpo e outro,
Entre um destino e outro.
Quando penso em você,
Ele desperta.
Levanta-se de seu repouso,
Sacode a poeira dos dias,
E percorre os vastos campos invisíveis da memória,
Como um animal livre atravessando planícies sem fim,
Seguindo um rastro que nenhum mapa registra
E que nenhuma bússola poderia indicar.
Ó coração!
Companheiro de todas as minhas jornadas,
Irmão das estrelas, dos rios e dos ventos,
Por que te agitas assim?
Por que golpeias as paredes do meu ser
Como se o universo inteiro fosse pequeno demais
Para conter o teu desejo?
Eu te vejo,
E não te condeno.
Pois o mesmo impulso que te leva em direção a ela
Move as marés para a praia,
Faz crescer a árvore em direção ao céu,
Faz o pássaro abandonar o ninho
E o viajante seguir adiante sem saber o caminho.
Penso em você,
E meu coração torna-se vasto.
Já não é apenas um órgão oculto na escuridão do corpo,
Mas uma criatura cósmica,
Uma força errante,
Uma centelha da antiga energia
Que une os seres, os tempos e os mundos.
E se um dia ele romper meu peito e partir,
Não chorarei sua ausência.
Saberei que apenas respondeu ao chamado
Que ressoa em todas as coisas:
O desejo profundo de abandonar a própria prisão
E caminhar, livre e luminoso,
Em direção àquilo que ama.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:
Postar um comentário