sexta-feira, 5 de junho de 2026

Eu canto este coração inquieto

Eu canto este coração inquieto, 
Canto esta criatura que habita meu peito 
E que não se contenta com os limites da carne, 
Nem com as fronteiras que os homens traçam 
Entre um corpo e outro, 
Entre um destino e outro. 

Quando penso em você, 
Ele desperta. 

Levanta-se de seu repouso, 
Sacode a poeira dos dias, 
E percorre os vastos campos invisíveis da memória, 
Como um animal livre atravessando planícies sem fim, 
Seguindo um rastro que nenhum mapa registra 
E que nenhuma bússola poderia indicar. 

Ó coração! 
Companheiro de todas as minhas jornadas, 
Irmão das estrelas, dos rios e dos ventos, 
Por que te agitas assim? 
Por que golpeias as paredes do meu ser 
Como se o universo inteiro fosse pequeno demais 
Para conter o teu desejo? 

Eu te vejo, 
E não te condeno. 

Pois o mesmo impulso que te leva em direção a ela 
Move as marés para a praia, 
Faz crescer a árvore em direção ao céu, 
Faz o pássaro abandonar o ninho 
E o viajante seguir adiante sem saber o caminho. 

Penso em você, 
E meu coração torna-se vasto. 

Já não é apenas um órgão oculto na escuridão do corpo, 
Mas uma criatura cósmica, 
Uma força errante, 
Uma centelha da antiga energia 
Que une os seres, os tempos e os mundos. 

E se um dia ele romper meu peito e partir, 
Não chorarei sua ausência. 

Saberei que apenas respondeu ao chamado 
Que ressoa em todas as coisas: 
O desejo profundo de abandonar a própria prisão 
E caminhar, livre e luminoso, 
Em direção àquilo que ama. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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