É um sintoma metafísico.
Ela começa quando o homem troca a dúvida
Pelo conforto da certeza imediata.
O idiota não pensa: ele reconhece.
Reconhece frases, gestos, inimigos prontos.
Pensar exige solidão,
E a solidão assusta mais que o erro.
A inteligência pergunta por quê.
A idiotice pergunta quem disse.
E, nesse deslocamento sutil,
A verdade deixa de ser descoberta
E passa a ser obedecida.
O idiota não busca o real,
Busca pertencimento.
Prefere estar errado em grupo
A estar só diante do indizível.
A filosofia sempre soube.
Não é o mal que vence o mundo,
É a preguiça de pensar.
O mal apenas ocupa
O espaço deixado pelo pensamento ausente.
A ascensão dos idiotas coincide
Com o declínio do trágico.
Quando o homem já não suporta
A complexidade da existência,
Ele exige respostas simples
Para perguntas que não as têm.
O idiota é o homem reconciliado
Com sua própria superficialidade.
Ele não sofre por não saber,
Sofre apenas quando alguém lhe lembra
Que poderia saber mais.
O mais assustador em tudo isso é que
Os idiotas não odeiam a inteligência,
Odeiam o espelho que ela oferece.
Pois pensar é reconhecer
Que somos sempre menos prontos
Do que gostaríamos de admitir.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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