segunda-feira, 15 de junho de 2026

O idiota não busca o real

A ascensão dos idiotas não é um acidente histórico, 
É um sintoma metafísico. 
Ela começa quando o homem troca a dúvida 
Pelo conforto da certeza imediata. 

O idiota não pensa: ele reconhece. 
Reconhece frases, gestos, inimigos prontos. 
Pensar exige solidão, 
E a solidão assusta mais que o erro. 

A inteligência pergunta por quê
A idiotice pergunta quem disse
E, nesse deslocamento sutil, 
A verdade deixa de ser descoberta 
E passa a ser obedecida. 

O idiota não busca o real, 
Busca pertencimento. 
Prefere estar errado em grupo 
A estar só diante do indizível. 

A filosofia sempre soube. 
Não é o mal que vence o mundo, 
É a preguiça de pensar. 
O mal apenas ocupa 
O espaço deixado pelo pensamento ausente. 

A ascensão dos idiotas coincide 
Com o declínio do trágico. 
Quando o homem já não suporta 
A complexidade da existência, 
Ele exige respostas simples 
Para perguntas que não as têm. 

O idiota é o homem reconciliado 
Com sua própria superficialidade. 
Ele não sofre por não saber, 
Sofre apenas quando alguém lhe lembra 
Que poderia saber mais. 

O mais assustador em tudo isso é que 
Os idiotas não odeiam a inteligência, 
Odeiam o espelho que ela oferece. 
Pois pensar é reconhecer 
Que somos sempre menos prontos 
Do que gostaríamos de admitir. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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