domingo, 14 de junho de 2026

Quando me abri por completo

Em seus braços, lentamente me desdobrei, 
Como um bilhete de amor lido em segredo. 
Mas nem o amor respondeu às perguntas antigas. 
Continuaram abertas as portas do mistério, 
E eu permaneci habitante da minha dúvida. 

Durante muito tempo fui apenas dobra e silêncio, 
Um papel escondido de si mesmo. 
Carregava palavras que não compreendia, 
Frases escritas por mãos invisíveis, 
Num idioma que a alma esqueceu ao nascer. 

Você me leu com a delicadeza dos que procuram sentido, 
Mas nenhum olhar pode salvar outro olhar. 
Cada ser atravessa sozinho a própria noite, 
Mesmo quando duas sombras caminham juntas, 
Sob a mesma lua indiferente. 

Ainda assim, havia algo em sua presença: 
Não uma resposta, mas uma companhia. 
E talvez seja isso que chamamos amor, 
Não o fim do vazio, 
Mas alguém sentado ao nosso lado diante dele. 

Quando me abri por completo, nada foi resolvido. 
O universo permaneceu vasto e silencioso. 
O tempo continuou apagando os rastros da passagem. 
Mas, por um instante, entre seus braços, 
Aceitei o enigma de existir sem compreendê-lo. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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