Como um bilhete de amor lido em segredo.
Mas nem o amor respondeu às perguntas antigas.
Continuaram abertas as portas do mistério,
E eu permaneci habitante da minha dúvida.
Durante muito tempo fui apenas dobra e silêncio,
Um papel escondido de si mesmo.
Carregava palavras que não compreendia,
Frases escritas por mãos invisíveis,
Num idioma que a alma esqueceu ao nascer.
Você me leu com a delicadeza dos que procuram sentido,
Mas nenhum olhar pode salvar outro olhar.
Cada ser atravessa sozinho a própria noite,
Mesmo quando duas sombras caminham juntas,
Sob a mesma lua indiferente.
Ainda assim, havia algo em sua presença:
Não uma resposta, mas uma companhia.
E talvez seja isso que chamamos amor,
Não o fim do vazio,
Mas alguém sentado ao nosso lado diante dele.
Quando me abri por completo, nada foi resolvido.
O universo permaneceu vasto e silencioso.
O tempo continuou apagando os rastros da passagem.
Mas, por um instante, entre seus braços,
Aceitei o enigma de existir sem compreendê-lo.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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