quarta-feira, 22 de julho de 2026

Restou o espaço vazio

Sonhei com teu corpo como quem inventa um milagre, 
Teu peso leve repousando em meus braços, 
Como se o mundo tivesse parado só para caber ali. 
Havia um silêncio quente entre nossos gestos, 
Uma verdade sem palavras, inteira, suspensa, 
E eu te segurava como quem descobre um sentido, 
Mesmo sabendo que o sentido não dura. 

Teu rosto era quase, tua pele era promessa, 
E ainda assim, tudo parecia mais real que o dia. 
Meu peito reconhecia o teu como destino antigo, 
Como se já tivéssemos vivido mil encontros 
Em outras noites que nunca existiram. 
E naquele instante impossível e exato, 
Eu era completo no que jamais aconteceu. 

Mas o despertar veio como quem desfaz um laço, 
E teus contornos se dissolveram na ausência. 
Restou o espaço vazio entre meus braços, 
Um eco suave daquilo que não foi, mas viveu. 
E agora caminho com essa lembrança sem origem, 
Carregando teu corpo que só existiu no sonho, 
Como uma saudade que nasceu antes de existir. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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