Em tempos de rostos iluminados por telas,
Em que as palavras não são mais ditas,
Mas injetadas, repetidas, programadas,
Ler é um crime secreto.
Abrir um livro é acender um fósforo na escuridão:
Um gesto pequeno, mas capaz de incendiar o silêncio.
Eles querem que você deslize,
Mas não que você mergulhe.
Querem olhos viciados em luz artificial,
Não em letras que respiram na penumbra.
Cada leitura é um ato de conspiração.
Cada página, um esconderijo.
Cada livro, uma bomba que explode em silêncio
Dentro da mente que ousa pensar.
Eles temem o leitor.
Porque o leitor não é massa,
Não é número,
Não é público-alvo.
O leitor é resistência.
É desvio.
É sombra que não se deixa domesticar.
E quando todos se ajoelham diante da tela,
O leitor, em seu exílio íntimo,
Ergue-se invisível,
Ergue-se armado de perguntas,
Ergue-se contra o império da distração.
Ler, agora, é revolta.
Ler, agora, é subversão.
Ler, agora, é permanecer humano
Quando querem nos transformar em espectros obedientes.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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