domingo, 19 de julho de 2026

A História como canto antigo

A História é um rio que nunca dorme. 
Carrega em suas águas o murmúrio de tudo que já fomos, 
Um cântico antigo, feito de vozes que o vento não conseguiu calar. 

Estudar a História é encostar o ouvido no peito do mundo 
E ouvir seu coração batendo por dentro da terra. 
Um som profundo, grave, ancestral, 
Como se cada século fosse um pulmão 
E cada civilização, um suspiro que ainda não terminou. 

A História é a memória do fogo. 
É o clarão que persiste 
Mesmo quando as brasas já não iluminam ninguém. 
É a chama teimosa que se recusa a morrer 
Porque sabe que no brilho breve de suas línguas 
Repousa a alma de tudo o que se ergueu e desabou. 

Ler o passado é como tocar ruínas com os dedos da alma, 
Sentindo nelas o calor que um dia foi vida. 
É descobrir que os escombros também falam, 
Que os silêncios também guardam testemunhos, 
E que até a poeira tem uma história para contar. 

A História é uma tecelã invisível. 
Suas mãos cruzam fios de tragédias e glórias, 
Tecendo a manta vasta que nos cobre, 
Uma manta de reis e escravos, de profetas e esquecidos, 
De batalhas e beijos, de exílios e regresso. 

E nós, ao estudá-la, tocamos esse tecido frágil, 
Sabendo que cada ponto guarda um mundo 
E cada mundo guarda uma ferida. 

A História é também um espelho quebrado. 
Reflete fragmentos do que fomos 
Para que possamos encontrar o que somos. 
Às vezes nos fere com seus estilhaços, 
Às vezes nos ilumina com clarões de reencontro. 
Mas sempre nos obriga a olhar. 

Há quem diga que o passado morreu. 
Mas nada morre na História: 
Apenas se transforma em sombra, 
Em eco, 
Em aviso. 
O passado é um animal silencioso 
Que caminha ao nosso lado sem nunca ser visto por inteiro, 
Mas sempre sentido. 

A História não pede adoração, 
Pede escuta. 
Ela se derrama sobre nós como chuva antiga, 
Lava nosso olhar, 
Afina nossa percepção, 
E sussurra segredos que apenas os atentos compreendem: 
Que toda vida traz dentro de si muitas vidas. 
Que todo gesto carrega o peso de mil gestos. 
Que ninguém nasce sozinho no tempo. 

Estudar a História é acender uma lamparina em meio à neblina: 
A luz é pequena, é frágil, 
Mas impede que nos percamos no escuro. 
A História é o nosso farol. 
E nós somos apenas viajantes 
Percorrendo o mar infinito dos dias. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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