Escuto o rumor de germes insalubres na alma do tempo.
Meu coração caminha entre ruínas que ninguém visita.
As palavras caem de meus lábios como folhas sem estação.
E ninguém parece ouvir o peso do meu silêncio.
Procuro um sentido nas janelas apagadas da cidade.
Cada rosto passa levando consigo um universo fechado.
Sou estrangeiro entre aqueles que chamam isto de vida.
A solidão não é a ausência de pessoas, mas de encontro.
E a existência pesa como uma pedra sobre o peito.
Talvez o absurdo seja apenas o nome do cotidiano.
Nascemos perguntando e morremos sem resposta.
As certezas envelhecem antes dos homens.
O tempo recolhe nossos sonhos como um coveiro paciente.
E ainda insistimos em chamar esperança de destino.
Meu coração devastado continua procurando uma voz.
Não para ser consolado, mas simplesmente compreendido.
Há uma fome de escuta maior que a fome do corpo.
Quem não é ouvido desaparece aos poucos dentro de si.
Como uma estrela que se apaga sem testemunhas.
Ainda é noite, mas caminho apesar da escuridão.
Talvez viver seja desafiar o silêncio do universo.
Talvez resistir seja a única resposta possível ao vazio.
Enquanto houver um pensamento recusando o nada, existirei.
E farei da minha inquietação a prova de que ainda estou vivo.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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