sábado, 25 de julho de 2026

É noite

É noite, e o mundo respira uma indiferença antiga. 
Escuto o rumor de germes insalubres na alma do tempo. 
Meu coração caminha entre ruínas que ninguém visita. 
As palavras caem de meus lábios como folhas sem estação. 
E ninguém parece ouvir o peso do meu silêncio. 

Procuro um sentido nas janelas apagadas da cidade. 
Cada rosto passa levando consigo um universo fechado. 
Sou estrangeiro entre aqueles que chamam isto de vida. 
A solidão não é a ausência de pessoas, mas de encontro. 
E a existência pesa como uma pedra sobre o peito. 

Talvez o absurdo seja apenas o nome do cotidiano. 
Nascemos perguntando e morremos sem resposta. 
As certezas envelhecem antes dos homens. 
O tempo recolhe nossos sonhos como um coveiro paciente. 
E ainda insistimos em chamar esperança de destino. 

Meu coração devastado continua procurando uma voz. 
Não para ser consolado, mas simplesmente compreendido. 
Há uma fome de escuta maior que a fome do corpo. 
Quem não é ouvido desaparece aos poucos dentro de si. 
Como uma estrela que se apaga sem testemunhas. 

Ainda é noite, mas caminho apesar da escuridão. 
Talvez viver seja desafiar o silêncio do universo. 
Talvez resistir seja a única resposta possível ao vazio. 
Enquanto houver um pensamento recusando o nada, existirei. 
E farei da minha inquietação a prova de que ainda estou vivo. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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