quinta-feira, 23 de julho de 2026

O último pensamento

Quando os relógios esquecem sua função, 
E a lâmpada derrama um ouro cansado sobre a mesa, 
O último pensamento da noite atravessa o quarto 
Como um visitante que conhece a casa melhor que seu dono. 
As cortinas respiram lentamente; 
Na rua, um vento sem destino recolhe papéis e ecos. 

Há vozes guardadas entre os livros fechados, 
Fragmentos de conversas que sobreviveram ao significado. 
Uma xícara vazia observa o escuro. 
O espelho conserva rostos que já partiram. 
E a mente, arqueóloga de ruínas recentes, 
Escava no silêncio aquilo que o dia enterrou. 

Não procuramos a verdade, talvez, 
Mas uma ordem provisória para os escombros. 
As horas empilham-se como pedras úmidas, 
E cada lembrança é uma janela iluminada 
Numa cidade que só existe 
Quando ninguém está desperto para vê-la. 

O último pensamento hesita na soleira do sonho. 
Traz o peso das perguntas não respondidas 
E a leveza estranha das coisas inevitáveis. 
Acima dos telhados invisíveis, 
As estrelas mantêm sua antiga indiferença, 
Fiéis ao seu distante ofício. 

Então a noite fecha seus arquivos. 
Os objetos retornam à sua obscuridade paciente. 
E aquilo que não pôde ser compreendido 
Desce lentamente às águas profundas do sono, 
Onde o sentido e o esquecimento 
Partilham a mesma corrente escura. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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