E a lâmpada derrama um ouro cansado sobre a mesa,
O último pensamento da noite atravessa o quarto
Como um visitante que conhece a casa melhor que seu dono.
As cortinas respiram lentamente;
Na rua, um vento sem destino recolhe papéis e ecos.
Há vozes guardadas entre os livros fechados,
Fragmentos de conversas que sobreviveram ao significado.
Uma xícara vazia observa o escuro.
O espelho conserva rostos que já partiram.
E a mente, arqueóloga de ruínas recentes,
Escava no silêncio aquilo que o dia enterrou.
Não procuramos a verdade, talvez,
Mas uma ordem provisória para os escombros.
As horas empilham-se como pedras úmidas,
E cada lembrança é uma janela iluminada
Numa cidade que só existe
Quando ninguém está desperto para vê-la.
O último pensamento hesita na soleira do sonho.
Traz o peso das perguntas não respondidas
E a leveza estranha das coisas inevitáveis.
Acima dos telhados invisíveis,
As estrelas mantêm sua antiga indiferença,
Fiéis ao seu distante ofício.
Então a noite fecha seus arquivos.
Os objetos retornam à sua obscuridade paciente.
E aquilo que não pôde ser compreendido
Desce lentamente às águas profundas do sono,
Onde o sentido e o esquecimento
Partilham a mesma corrente escura.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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