Ao cair da tarde, entre corredores de relógios cansados,
Onde a poeira repousa sobre fotografias sem nome,
Caminhamos como quem atravessa uma estação abandonada,
Ouvindo o rumor distante de vozes que já não recordam
Se falavam de amor
Ou apenas da arte refinada
De perder a si mesmos.
Nas janelas, a luz hesita.
Os dias empilham-se como jornais antigos.
E há aqueles que chamam amor
Ao lento desaparecimento de um rosto,
Ao hábito de apagar palavras,
Ao gesto de dobrar a alma
Para que caiba em molduras estreitas.
Mas o coração conhece outros desertos.
Sabe que não é amor
A sala onde os espelhos repetem apenas uma imagem,
Nem a mesa onde todos os lugares são ocupados
Pela mesma ausência.
O amor não é a sombra que cresce
Sobre o nome que pronunciamos em segredo,
Até que ele se torne irreconhecível.
E, ainda assim,
Entre os fragmentos recolhidos ao longo dos anos,
Entre cartas esquecidas e sonhos interrompidos,
Permanece uma chama discreta,
Como uma vela acesa numa igreja vazia,
Como um pássaro oculto entre ruínas.
Ela sussurra em meus ouvidos
Que amar não é reduzir,
Mas permitir que o outro permaneça;
Que a proximidade não exige naufrágio;
Que duas solidões podem caminhar juntas
Sem que uma devore a outra.
E quando a noite enfim desce
Sobre as ruas, os livros e os calendários,
Resta essa pequena certeza
Entre tantas incertezas do mundo.
O amor que vale
É aquele diante do qual podemos permanecer inteiros,
Sem precisar desaparecer
Para sermos vistos.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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