sexta-feira, 26 de junho de 2026

O amor que não exige ausência

Ao cair da tarde, entre corredores de relógios cansados, 
Onde a poeira repousa sobre fotografias sem nome, 
Caminhamos como quem atravessa uma estação abandonada, 
Ouvindo o rumor distante de vozes que já não recordam 
Se falavam de amor 
Ou apenas da arte refinada 
De perder a si mesmos. 
 
Nas janelas, a luz hesita. 
Os dias empilham-se como jornais antigos. 
E há aqueles que chamam amor 
Ao lento desaparecimento de um rosto, 
Ao hábito de apagar palavras, 
Ao gesto de dobrar a alma 
Para que caiba em molduras estreitas. 
 
Mas o coração conhece outros desertos. 
Sabe que não é amor 
A sala onde os espelhos repetem apenas uma imagem, 
Nem a mesa onde todos os lugares são ocupados 
Pela mesma ausência. 
O amor não é a sombra que cresce 
Sobre o nome que pronunciamos em segredo, 
Até que ele se torne irreconhecível. 
 
E, ainda assim, 
Entre os fragmentos recolhidos ao longo dos anos, 
Entre cartas esquecidas e sonhos interrompidos, 
Permanece uma chama discreta, 
Como uma vela acesa numa igreja vazia, 
Como um pássaro oculto entre ruínas. 
 
Ela sussurra em meus ouvidos 
Que amar não é reduzir, 
Mas permitir que o outro permaneça; 
Que a proximidade não exige naufrágio; 
Que duas solidões podem caminhar juntas 
Sem que uma devore a outra. 
 
E quando a noite enfim desce 
Sobre as ruas, os livros e os calendários, 
Resta essa pequena certeza 
Entre tantas incertezas do mundo. 
O amor que vale 
É aquele diante do qual podemos permanecer inteiros, 
Sem precisar desaparecer 
Para sermos vistos. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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