segunda-feira, 15 de junho de 2026

Fogueiras antigas

Entre as páginas amareladas da tarde 
E o ruído dos relógios elétricos, 
Caminha o leitor moderno, 
Carregando em seus bolsos fragmentos de atenção, 
Recibos, notificações, promessas adiadas, 
Enquanto os grandes livros permanecem imóveis 
Como catedrais erguidas no deserto do tempo. 
 
Não foram escritos para o trem que passa, 
Nem para o olhar que desliza sobre as superfícies. 
Foram escritos para as horas vazias, 
Para o silêncio que se instala após a chuva, 
Quando as sombras dos antepassados 
Sentam-se ao redor da mesa 
E perguntam o que fizemos de nossa herança. 
 
Li algumas linhas ao cair da noite. 
O vento moveu as cortinas. 
Uma lâmpada vacilou sobre a escrivaninha. 
E entre uma frase e outra 
Ouvi o rumor distante de vozes esquecidas, 
Como se os mortos ainda habitassem 
Os corredores escuros da linguagem. 
 
Quem lê depressa recolhe apenas cinzas. 
Quem permanece encontra brasas. 
Pois os grandes livros são fogueiras antigas, 
Alimentadas por séculos de inquietação humana. 
E nós, habitantes desta era fragmentada, 
Aproximamo-nos de seu calor por um instante, 
Antes que a noite volte a reclamar o seu domínio. 
 
Então compreendemos, tarde demais talvez, 
Que a pressa era apenas outra forma de exílio. 
As páginas continuam abertas sobre a mesa. 
O relógio prossegue seu trabalho indiferente. 
Mas alguma coisa resiste entre as palavras. 
Uma pequena luz contra o esquecimento, 
Uma voz que atravessa as ruínas e permanece. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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