segunda-feira, 22 de junho de 2026

Os livros não fazem barulho

Os ditadores sempre pareceram fortes 
Atrás das mesas largas 
Dos discursos ensaiados 
Das bandeiras muito bem passadas 
E das botas brilhando. 

Mas eu nunca confiei em pessoas 
Que têm medo de uma biblioteca. 
Isso sempre me pareceu estranho. 
Você pode prender um corpo, 
Mas como prende uma ideia? 

Há quem troque um livro 
Por uma promessa fácil. 
É um mau negócio. 
Promessas envelhecem depressa. 
Palavras boas demoram mais. 

Já vi gente pobre 
Carregando um romance debaixo do braço 
Como quem levava um pedaço de pão. 
E talvez fosse isso mesmo. 
Há fomes que não aparecem nas fotografias. 

No fim das contas, 
Os livros continuam ali. 
Esperando outro par de olhos, 
Enquanto os retratos dos tiranos 
Apodrecem na parede da história. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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