terça-feira, 23 de junho de 2026

Presságios

Pense em mim como a noite sem lua 
Que precede a queda dos relógios. 
As ruas, vazias, aguardam o estrondo 
Que fará o mundo esquecer seu próprio nome. 
Pois quando o silêncio falar, 
Não haverá abrigo nem testemunha. 

Pense em mim como o frio que chega 
Antes do último eclipse. 
Os lampiões tremem, as janelas se trancam, 
E o vento anuncia o colapso dos destinos. 
Nada floresce quando a luz se recolhe, 
Somente o desfecho. 

Pense em mim como a ausência de estrelas 
Quando a cidade conta suas culpas. 
Os passos cessam, os cães calam, 
E o asfalto se prepara para o juízo. 
Toda noite assim traz um decreto, 
E este não terá misericórdia. 

Pense em mim como a vigília final, 
Quando o céu perde o fôlego 
E o horizonte racha em silêncio. 
Não haverá amanhecer que redima, 
Pois algumas noites são sentenças 
Que nem o sol ousa contradizer. 

Pense em mim como o presságio que avança, 
Sem lua, sem voz, sem retorno. 
As ruas desertas são a escritura 
De um pacto antigo demais para ser revertido. 
Quem o lê, entende: o fim nunca chega de súbito; 
Ele apenas escolhe uma noite. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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