Que precede a queda dos relógios.
As ruas, vazias, aguardam o estrondo
Que fará o mundo esquecer seu próprio nome.
Pois quando o silêncio falar,
Não haverá abrigo nem testemunha.
Pense em mim como o frio que chega
Antes do último eclipse.
Os lampiões tremem, as janelas se trancam,
E o vento anuncia o colapso dos destinos.
Nada floresce quando a luz se recolhe,
Somente o desfecho.
Pense em mim como a ausência de estrelas
Quando a cidade conta suas culpas.
Os passos cessam, os cães calam,
E o asfalto se prepara para o juízo.
Toda noite assim traz um decreto,
E este não terá misericórdia.
Pense em mim como a vigília final,
Quando o céu perde o fôlego
E o horizonte racha em silêncio.
Não haverá amanhecer que redima,
Pois algumas noites são sentenças
Que nem o sol ousa contradizer.
Pense em mim como o presságio que avança,
Sem lua, sem voz, sem retorno.
As ruas desertas são a escritura
De um pacto antigo demais para ser revertido.
Quem o lê, entende: o fim nunca chega de súbito;
Ele apenas escolhe uma noite.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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