domingo, 21 de junho de 2026

O campo secreto dos sonhos

O último pensamento da noite chega manso, sem aviso, 
Como um pássaro tardio pousando no silêncio. 
Traz nos olhos a poeira das horas vividas, 
E nas mãos, perguntas que o dia esqueceu. 
Paira entre a sombra do quarto e a luz da memória, 
Escutando o coração falar em voz baixa, 
Antes que o sono feche as portas do mundo. 

Então a escuridão o acolhe como um rio profundo, 
E ele navega por águas que não têm nome. 
Leva consigo fragmentos de saudade e desejo, 
Constelações íntimas que ninguém vê. 
Cada lembrança se torna uma estrela distante, 
Cada esperança, uma chama escondida, 
Ardendo sob o véu tranquilo da madrugada. 

Quando a manhã enfim desperta as janelas, 
Algo daquele pensamento permanece aceso. 
Não como resposta, mas como semente, 
Guardada no campo secreto dos sonhos. 
E o dia, sem perceber sua origem, floresce, 
Colorido por aquilo que a noite protegeu, 
No breve milagre entre o adeus e o recomeço. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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