quarta-feira, 17 de junho de 2026

Os homens da vitrine

Ao cair da tarde, quando as telas acendem 
Como pequenos altares domésticos, 
Caminhamos pelas avenidas do pensamento gasto, 
Entre anúncios luminosos e frases recicladas, 
Carregando nos bolsos opiniões que não nos pertencem. 
 
Na estação das palavras esquecidas, 
Um velho livro repousa sob a poeira. 
Ninguém o consulta. 
Os oráculos modernos falam mais depressa, 
E a velocidade passou a ser confundida com sabedoria. 
 
Vi homens reunidos em cafés e corredores, 
Não para perguntar, mas para confirmar. 
Repetiam as mesmas sílabas gastas 
Como sacerdotes de uma religião sem mistério, 
Como ecos procurando outros ecos. 
 
E a noite avançava sobre a cidade, 
Não a noite das estrelas e dos antigos navegantes, 
Mas a outra, feita de ruídos incessantes, 
De certezas fabricadas em série, 
De consciências embaladas para consumo imediato. 
 
Entre os edifícios, o vento carregava papéis, 
Fragmentos de promessas, estatísticas, slogans. 
Nada permanecia. 
Tudo parecia urgente, 
E por isso mesmo nada era importante. 
 
Quem ainda ousa perguntar? 
Quem suporta o peso da dúvida 
Quando o mercado vende convicções prontas? 
A interrogação tornou-se um objeto antiquado, 
Como um relógio herdado de um avô esquecido. 
 
E assim seguimos, 
Não com estrondo, nem com tragédia, 
Mas com um sorriso satisfeito e distraído, 
Atravessando corredores iluminados, 
Enquanto as bibliotecas escurecem lentamente. 
 
Talvez a decadência não chegue com tambores. 
Talvez ela entre silenciosa pela porta da frente, 
Sente-se à mesa, participe da conversa 
E nos convença, com delicadeza, 
De que pensar é um esforço desnecessário. 
 
Então restará apenas o ruído, 
E os homens da vitrine continuarão sorrindo, 
Refletidos infinitamente nos vidros da própria imagem, 
Sem perceber que a escuridão cresce atrás deles, 
Paciente como o tempo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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