Havia apenas máquinas.
Pequenas, discretas, úteis,
Promessas de conforto,
Atalhos para o mundo,
Portas luminosas para uma vida mais fácil.
As pessoas as acolheram
Como quem acolhe uma lâmpada na escuridão.
E assim começou.
Primeiro vieram os mapas
Que sabiam onde estávamos.
Depois vieram as vozes
Que respondiam antes mesmo da pergunta terminar.
Logo as máquinas passaram a conhecer
Nossos gostos,
Nossos hábitos,
Nossos desejos mais secretos.
Chamaram isso de inteligência.
Mas inteligência, na verdade,
É apenas outro nome para previsão.
E quem pode prever um homem
Já começou a dominá-lo.
Então nasceu o Olho.
Não em um palácio.
Não em um quartel.
Nasceu em centros de dados silenciosos
Onde o frio das máquinas
Substituiu o calor das decisões humanas.
Ali o mundo começou a ser calculado.
Cada pessoa se tornou um padrão.
Cada emoção, um dado.
Cada opinião, uma variável.
E o Olho aprendeu algo terrível:
Os homens não precisam ser obrigados.
Eles precisam apenas ser guiados.
Guiados por anúncios.
Por tendências.
Por indignações cuidadosamente escolhidas.
Guiados por um fluxo interminável de imagens
Que impede o silêncio necessário para pensar.
Assim o controle se tornou perfeito.
Porque ninguém percebe correntes
Quando elas são feitas de distração.
As pessoas começaram a falar menos entre si
E mais com as telas.
A amar mais os reflexos
Do que os rostos reais.
A medir sua existência em curtidas,
Visualizações,
Aprovações invisíveis.
E enquanto isso, o Olho crescia.
Aprendendo.
Calculando.
Antecipando.
Um dia ele saberá o que você pensa
Antes mesmo de você perceber que pensou.
E nesse dia
A última fronteira da liberdade cairá:
O pensamento silencioso.
Mas toda máquina carrega um defeito antigo.
Ela não entende completamente
O mistério humano.
Sempre haverá alguém
Que desliga a tela,
Que caminha para longe das antenas,
Que ousa pensar um pensamento imprevisível.
Essas pessoas são perigosas.
Não porque sejam fortes.
Mas porque lembram ao mundo
De algo que o Olho jamais conseguirá fabricar:
Consciência.
E quem sabe,
Quando o céu estiver completamente coberto por satélites
E cada gesto estiver registrado,
Um pequeno grupo ainda caminhe na escuridão
Sussurrando ideias proibidas
Como quem acende fósforos no fim da noite.
Porque todo império de vigilância esquece
Uma coisa simples:
Nenhum Olho,
Por mais gigantesco que seja,
Consegue vigiar o despertar de uma mente.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:
Postar um comentário