sexta-feira, 19 de junho de 2026

Profecia do Olho que nunca dorme

No princípio não havia tiranos. 
Havia apenas máquinas. 
Pequenas, discretas, úteis, 
Promessas de conforto, 
Atalhos para o mundo, 
Portas luminosas para uma vida mais fácil. 
As pessoas as acolheram 
 Como quem acolhe uma lâmpada na escuridão. 
E assim começou. 

Primeiro vieram os mapas 
Que sabiam onde estávamos. 
Depois vieram as vozes 
Que respondiam antes mesmo da pergunta terminar. 
Logo as máquinas passaram a conhecer 
Nossos gostos, 
Nossos hábitos, 
Nossos desejos mais secretos. 
Chamaram isso de inteligência. 
Mas inteligência, na verdade, 
É apenas outro nome para previsão. 
E quem pode prever um homem 
Já começou a dominá-lo. 

Então nasceu o Olho. 
Não em um palácio. 
Não em um quartel. 
Nasceu em centros de dados silenciosos 
Onde o frio das máquinas 
Substituiu o calor das decisões humanas. 
Ali o mundo começou a ser calculado. 
Cada pessoa se tornou um padrão. 
Cada emoção, um dado. 
Cada opinião, uma variável. 
E o Olho aprendeu algo terrível: 
Os homens não precisam ser obrigados. 
Eles precisam apenas ser guiados. 
Guiados por anúncios. 
Por tendências. 
Por indignações cuidadosamente escolhidas. 
Guiados por um fluxo interminável de imagens 
Que impede o silêncio necessário para pensar. 

Assim o controle se tornou perfeito. 
Porque ninguém percebe correntes 
Quando elas são feitas de distração. 
As pessoas começaram a falar menos entre si 
E mais com as telas. 
A amar mais os reflexos 
Do que os rostos reais. 
A medir sua existência em curtidas, 
Visualizações, 
Aprovações invisíveis. 
E enquanto isso, o Olho crescia. 
Aprendendo. 
Calculando. 
Antecipando. 
Um dia ele saberá o que você pensa 
Antes mesmo de você perceber que pensou. 
E nesse dia 
A última fronteira da liberdade cairá: 
O pensamento silencioso. 

Mas toda máquina carrega um defeito antigo. 
Ela não entende completamente 
O mistério humano. 
Sempre haverá alguém 
Que desliga a tela, 
Que caminha para longe das antenas, 
Que ousa pensar um pensamento imprevisível. 
Essas pessoas são perigosas. 
Não porque sejam fortes. 
Mas porque lembram ao mundo 
De algo que o Olho jamais conseguirá fabricar: 
Consciência. 

E quem sabe, 
Quando o céu estiver completamente coberto por satélites 
E cada gesto estiver registrado, 
Um pequeno grupo ainda caminhe na escuridão 
Sussurrando ideias proibidas 
Como quem acende fósforos no fim da noite. 
Porque todo império de vigilância esquece 
Uma coisa simples: 
Nenhum Olho, 
Por mais gigantesco que seja, 
Consegue vigiar o despertar de uma mente. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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