Na última hora da noite,
Quando a geladeira é o único animal acordado,
Fico olhando a fumaça imaginária do pensamento
Subir até o teto
E desaparecer sem espetáculo.
O dia foi o que foi.
Algumas vitórias pequenas,
Alguns erros idiotas,
Contas para pagar,
Silêncios para engolir.
O último pensamento nunca é elegante.
Ele chega amassado,
Com cheiro de estrada e cansaço,
Sentando-se na beira da cama
Como um velho amigo sem boas notícias.
Mas há certa honestidade nisso.
As coisas finalmente param de fingir.
A noite não vende esperança,
Não faz discursos,
Não promete finais felizes.
Então apago a luz.
O pensamento fica ali por mais um instante.
Nem sábio, nem heroico.
Apenas humano.
E, estranhamente, isso basta.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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