terça-feira, 16 de junho de 2026

Na última hora da noite

Na última hora da noite, 
Quando a geladeira é o único animal acordado, 
Fico olhando a fumaça imaginária do pensamento 
Subir até o teto 
E desaparecer sem espetáculo. 

O dia foi o que foi. 
Algumas vitórias pequenas, 
Alguns erros idiotas, 
Contas para pagar, 
Silêncios para engolir. 

O último pensamento nunca é elegante. 
Ele chega amassado, 
Com cheiro de estrada e cansaço, 
Sentando-se na beira da cama 
Como um velho amigo sem boas notícias. 

Mas há certa honestidade nisso. 
As coisas finalmente param de fingir. 
A noite não vende esperança, 
Não faz discursos, 
Não promete finais felizes. 

Então apago a luz. 
O pensamento fica ali por mais um instante. 
Nem sábio, nem heroico. 
Apenas humano. 
E, estranhamente, isso basta. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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