quarta-feira, 24 de junho de 2026

O tempo morto

Em tudo o que se espera, algo range, 
Um fio de silêncio que ameaça romper. 
E enquanto o mundo se retarda, 
A imaginação grita pelos olhos, 
Como se o olhar fosse um cárcere por dentro. 

O poeta não escreve: ele escuta. 
Escuta o rumor de criaturas 
Que nascem do medo e da demora, 
E que se alimentam do que poderia ter sido. 

Há um limite, dizem. 
Mas o limite só existe até o instante em que é tocado. 
Depois disso, não há retorno, 
Apenas a vertigem de criar o abismo 
E de cair nele com os próprios nomes. 

Esperar é uma forma de necromancia: 
O tempo morto ressuscita ideias, 
E elas voltam deformadas, 
Mais vivas do que deveriam. 

E se há alguma fronteira, 
Ela não está no mundo, 
Mas no corpo que arde para ultrapassá-lo. 
O resto é apenas o escuro aprendendo a ver. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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