quarta-feira, 3 de junho de 2026

Minha biblioteca

 Não abro mão da minha biblioteca. 
Já me desfiz de roupas, amores e ilusões. 
O tempo levou muita coisa sem pedir licença, 
Mas os livros ficaram por aqui, 
Teimosos como velhos bêbados no balcão. 
 
Eles não me prometeram felicidade. 
Isso é coisa de vendedor e candidato. 
Os livros me deram algo mais honesto. 
Algumas verdades desconfortáveis 
E a companhia necessária para suportá-las. 
 
Há noites em que não acredito em quase nada. 
Nem nos jornais, nem nos discursos, nem nos heróis. 
Então puxo um livro da estante, 
E encontro alguém morto há cem anos 
Pensando as mesmas porcarias que eu. 
 
Minha biblioteca não é elegante. 
Há volumes tortos, manchas e poeira. 
Alguns carregam marcas de café e insônia, 
Como cicatrizes que ninguém tentou esconder, 
E talvez por isso eu goste tanto deles. 
 
Quando eu partir, os livros ficarão. 
É assim que deve ser. 
Eles passarão para outras mãos, outros olhos, 
Enquanto eu desapareço no grande silêncio. 
E isso, curiosamente, me parece justo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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